martes, 3 de abril de 2007

De Fernando Pessoa: Poesias de Álvaro de Campos


"Ah, todo cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço

Entre o cais e o navio,
Ven-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
e me envolve com uma recordação duma outra pessoa que fosse misteriosamente minha.
Ah, quem sabe, quem sabe,
se não partí outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblícuo da madrugada,
Uma outra especie de porto?

Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,

Duma grande cidade meio-desperta,

Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do
Espaço e do Tempo?"

2 comentarios:

Paulo Sempre dijo...

Poste tot tantorque labores (depois de tantos trabalhos), e pro domo sua (a favor do bem geral) ainda tenho que ler isto?
Abraço
Paulo

Luis Enrique dijo...

Pois...jejejejeje

Abraço